Por: Moisés Cambuy
Salvador vai acordar na sexta (22) com aquela tradicional surpresa que já virou quase patrimônio cultural da cidade: greve dos rodoviários. Porque, aparentemente, o cidadão soteropolitano não pode simplesmente pegar um ônibus e seguir sua vida em paz. Tem que existir emoção, suspense e um toque de “Jogos Vorazes” logo às 5h da manhã no ponto.
A notícia da paralisação caiu como sempre cai: todo mundo fingindo surpresa, mesmo sabendo que, no fundo, já estava esperando. Afinal, em Salvador, quando começam as reuniões, ameaças de greve, notas oficiais e “negociações em andamento”, o trabalhador já entende o recado e começa automaticamente a procurar carona, aplicativo, bicicleta, jegue ou intervenção divina.
Enquanto isso, a população faz seu aquecimento olímpico para enfrentar quilômetros de caminhada no calor de 30 graus, disputando espaço em vans, mototáxis e ônibus lotados que provavelmente vão passar direto. O verdadeiro circuito alternativo da cidade não é o Carnaval: é sobreviver ao transporte público quando ele resolve entrar em modo “edição limitada”.
E claro, nas redes sociais já começou o festival de especialistas em mobilidade urbana, economia, política, direitos trabalhistas e engenharia de tráfego. Todo mundo indignado, mas sem saber exatamente com quem. O motorista culpa a empresa, a empresa culpa a situação financeira, o povo culpa todo mundo e o relógio continua correndo enquanto o trabalhador percebe que vai precisar sair de casa na sexta para chegar no trabalho na segunda-feira.
No fim das contas, Salvador segue firme em sua tradição de transformar qualquer trajeto simples em uma experiência radical. Porque aqui, pegar ônibus não é apenas transporte: é sobrevivência, resistência e, às vezes, um esporte de alto rendimento.







