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O ônibus da promessa: ACM cobra hoje o que não entregou ontem

Opinião de Moisés Cambuy

Há algo de peculiar na política baiana: certas promessas parecem ter ar-condicionado próprio — ficam congeladas por anos e só voltam a circular quando chega a eleição. Foi assim com ACM Neto, que agora sobe ao palanque para cobrar ônibus climatizados, frota renovada, novas linhas e pontualidade em Salvador. O detalhe inconveniente é que a cobrança vem justamente de quem, em 2012, prometeu climatizar os ônibus da capital e passou oito anos sentado na cadeira de prefeito. Quatorze anos depois, a promessa continua rodando — ainda que em marcha lenta.

Em 2012, ACM Neto falava em renovar a frota e colocar ônibus com ar-condicionado nas ruas. Em 2013, a própria Prefeitura reforçou que novos veículos entrariam no sistema com climatização. A realidade, porém, encontrou um desvio no caminho: o contrato de concessão de 2014 não tornou o ar-condicionado uma obrigação. Em 2016, a solução apareceu em formato quase irônico: o Connect Bus, serviço executivo com veículos climatizados, wi-fi e poltronas confortáveis, mas com tarifa superior à dos ônibus convencionais. O conforto que deveria ser política pública virou, por algum tempo, uma espécie de upgrade para quem pudesse pagar.

Depois vieram TACs, metas, prazos e números — aquele conhecido vocabulário das promessas que envelhecem bem no papel. Em 2019, a previsão era chegar a mil ônibus climatizados até 2022. A meta, entretanto, não saiu exatamente como planejado: parte dos veículos previstos sequer circulava e outra parte nem havia sido comprada. O calendário passou, ACM deixou a Prefeitura em 2020 e Bruno Reis herdou não apenas o cargo, mas também a promessa inacabada. Em 2025, ainda faltavam centenas de ônibus para cumprir uma meta vencida. E, em janeiro de 2026, o Correio registrava que apenas 741 dos quase 2 mil ônibus de Salvador tinham ar-condicionado.

Agora, Bruno Reis promete climatizar toda a frota até 2028. Se dessa vez o ar-condicionado não evaporar junto com o prazo, as gestões carlistas terão consumido cerca de 16 anos para entregar aquilo que ACM Neto prometeu em 2012. E é justamente nesse ponto que o discurso atual ganha contornos de comédia política: o homem que poderia ter sido parte da solução aparece agora como comentarista do problema. Cobrar é fácil, principalmente quando se esquece que a promessa também tem CPF político. Em Salvador, pelo visto, o passageiro não espera apenas o ônibus chegar; espera também que a promessa saia do congelador.

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