Editorial | Carnaval para quem?
Por | Moisés Cambuy
Na segunda-feira de Carnaval de 2026, enquanto os blocos arrastavam multidões pelo centro de São Paulo e os discursos oficiais celebravam “a maior festa popular do planeta”, outro espetáculo se desenrolava longe dos trios elétricos: ambulantes sendo dispersados com spray de pimenta, empurrões e ameaças por agentes da Guarda Civil Metropolitana e da Polícia Militar.
Segundo relatos de trabalhadores e vídeos que circularam nas redes sociais, a cena se repetiu em diferentes pontos da cidade: homens e mulheres tentando garantir o sustento no meio da folia sendo tratados como caso de polícia. A ironia é quase didática. O poder público promove o Carnaval, comemora números recordes de público, fala em impacto bilionário na economia — mas, quando a economia real aparece na forma de isopor, carrinho e caixa térmica, a resposta é gás nos olhos.
A gestão municipal de Ricardo Nunes e o governo estadual de Tarcísio de Freitas parecem ter encontrado um inimigo à altura: o vendedor de água a cinco reais. Nada mais ameaçador à ordem pública do que alguém tentando pagar o aluguel depois de meses de inflação, desemprego e informalidade crescente. Afinal, é preciso manter o “ordenamento urbano” — expressão elegante que, na prática, costuma significar empurrar os mais pobres para fora da foto oficial.
Há algo de profundamente simbólico nisso. O Carnaval, historicamente espaço de inversão, de crítica e de ocupação popular das ruas, vira vitrine higienizada. Pode dançar, pode cantar, pode consumir — desde que consuma no circuito certo, com o patrocinador certo, no espaço previamente autorizado. Trabalhar por conta própria? Só se for invisível.
É curioso como a força do Estado se mostra célere e musculosa quando o alvo é o ambulante. Para coibir estruturas irregulares milionárias, ocupações especulativas ou fraudes fiscais complexas, o ritmo costuma ser outro — mais burocrático, mais cauteloso, mais compreensivo. Mas diante de um cooler e algumas latas de refrigerante, a resposta vem em jato.
Defensores da repressão dirão que há regras, que é preciso organização, que o espaço público não é terra de ninguém. Tudo correto no papel. A questão é: a aplicação da lei é proporcional? É humana? É razoável usar spray de pimenta contra quem está trabalhando? Ou estamos naturalizando a ideia de que pobreza é sinônimo de desordem?
Carnaval é festa popular — pelo menos no discurso. Mas os acontecimentos desta segunda-feira deixam a impressão de que o “popular” tem limites bem definidos. Pode estar na plateia, pode inflar estatística turística, pode compor a narrativa oficial de diversidade. Só não pode ultrapassar a linha invisível que separa o folião do indesejado.
Se a cidade quer ser palco da maior festa do mundo, talvez precise começar garantindo algo mais básico: que seus trabalhadores não sejam tratados como intrusos na própria rua. Porque, no fim, o que ficou no ar — mais do que confete e serpentina — foi o ardor do spray e a sensação amarga de que, para alguns, a folia sempre termina mais cedo.






