Por | Moisés Cambuy
O ex-vereador Carlos Bolsonaro resolveu vestir novamente a armadura retórica neste domingo para defender o que parece ser, acima de tudo, uma questão de “hierarquia dinástica”. O motivo da irritação foi a ousadia quase revolucionária do presidente do Partido Liberal em lembrar que, numa legenda partidária, todos os membros — veja só — têm direito a indicar candidatos. Uma ideia perigosa, aparentemente. Democracia interna pode causar alergias quando se está acostumado a listas previamente ungidas.
A declaração de Valdemar Costa Neto soou como um lembrete incômodo de que partidos políticos não são franquias familiares. Ao afirmar que o direito de indicar nomes não pertence exclusivamente a uma única liderança, ele tocou num ponto sensível: a diferença entre comando político e posse hereditária. Em tempos em que certas estruturas partidárias parecem funcionar por laços de sangue e lealdade personalista, a lembrança de regras estatutárias pode parecer quase uma afronta.
O pano de fundo da polêmica é a movimentação do ex-presidente Jair Bolsonaro na organização de uma lista de pré-candidatos ao Senado e aos governos estaduais. A iniciativa, descrita como estratégica, sugere que o critério para receber o selo de apoio pode depender menos de debates internos e mais de alinhamentos previamente carimbados. Afinal, nada simboliza melhor o espírito republicano do que uma lista cuidadosamente preparada antes mesmo que o partido discuta publicamente seus rumos.
No fim das contas, o episódio revela algo maior que uma troca de farpas: expõe a tensão entre institucionalidade e personalismo. Se todo filiado pode indicar candidatos, como afirmou o presidente da legenda, isso implica admitir que o partido existe para além de um sobrenome. E talvez seja justamente essa a maior provocação — a simples lembrança de que, em teoria, partidos políticos deveriam funcionar como instituições coletivas, e não como extensões de um clã político em permanente estado de campanha.







