Por | Moisés Cambuy
No delicado tabuleiro da política baiana, as palavras ditas — e sobretudo as não ditas — carregam mais peso do que aparentam. Foi nesse tom, quase poético e ao mesmo tempo contundente, que Rui Costa, hoje à frente da Casa Civil e pré-candidato ao Senado, lançou uma crítica que ecoou como recado direto, ainda que sem destinatário nomeado. Em meio a exemplos concretos e realizações visíveis, desenhou-se uma narrativa de desalinhamento, onde a ingratidão pareceu ganhar forma política.
Ao mencionar a chegada de uma universidade federal à cidade — fruto de articulações e investimentos do governo estadual — o ministro não apenas destacou obras, mas evocou compromissos. Em sua fala, havia mais que números e construções: havia um apelo por reconhecimento, por coerência entre o que se recebe e o que se declara publicamente. Nesse contexto, a crítica ao comportamento de gestores locais soou como um lamento diante daquilo que ele sugere ser uma postura contraditória: beneficiar-se de ações governamentais enquanto se alimenta um discurso de oposição.
Embora não tenha citado nomes, a leitura política conduz inevitavelmente à figura do prefeito de Jequié, José Cocá. o fato é que lealdade e confiança são moedas raras e caras. O episódio revela tensões de alianças que se desgastam sob o peso de interesses divergentes. Em tempos em que projetos e discursos deveriam caminhar juntos, a palavra “traição” surge como um divisor de águas, ainda que sussurrada nas entrelinhas. E assim, entre obras erguidas e pontes simbólicas rompidas, a política segue seu curso — feita de gestos, memórias e, sobretudo, de recados que todos entendem, mesmo quando ninguém é oficialmente chamado.







