Fotos Daniel Thame GovBA
Por | Moisés Cambuy
Há, no coração quente da Bahia, um rumor antigo que agora ganha voz de lei. O cacau — fruto denso, escuro, quase mítico — deixa de ser apenas matéria-prima para se tornar protagonista de sua própria história. A recente aprovação, na Câmara dos Deputados, do projeto que estabelece percentuais mínimos de cacau nos chocolates reacende uma dignidade há muito reclamada: a de que o chocolate volte a ser, de fato, chocolate. Mais do que números, trata-se de identidade, de verdade impressa naquilo que se derrete na boca e também na consciência.
Por décadas, o Brasil conviveu com um paradoxo agridoce: sendo um dos grandes produtores mundiais de cacau, viu seu principal produto diluído em fórmulas onde o açúcar, muitas vezes, falava mais alto que a própria essência do fruto. Agora, ao exigir percentuais mais elevados — como cerca de 35% de sólidos de cacau para chocolates mais intensos —, o país parece corrigir uma distorção histórica, resgatando o valor de sua própria terra e de seus agricultores.
Na Bahia, onde o cacau é mais que cultura — é memória, sustento e paisagem —, essa mudança ecoa como um gesto de reparação. A articulação política e produtiva que impulsionou o projeto revela algo raro: quando o campo e o Congresso caminham juntos, nasce uma política que não apenas regula, mas também protege. Protege o pequeno produtor, fortalece a economia regional e preserva uma tradição que resistiu a pragas, crises e esquecimentos.
E assim, entre plantações sombreadas e mãos calejadas, o futuro do chocolate brasileiro começa a ganhar outro sabor — mais intenso, mais honesto, mais nosso. Que cada barra carregue não só o percentual estampado na embalagem, mas também a história de quem planta, colhe e transforma. Porque, no fim, não se trata apenas de cacau: trata-se de devolver densidade ao que foi esvaziado, e de lembrar que até a doçura precisa de verdade para existir.







