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Ciro Gomes demonstra que foi sempre pelo poder

Por | Moisés Cambuy

O mais novo capítulo da política cearense traz um roteiro curioso: o pré-candidato ao governo do estado, Ciro Gomes, agora acena para uma possível aliança com o Partido Liberal no Ceará. Segundo ele, as divergências com o partido no plano nacional “talvez sejam insuperáveis”, mas no âmbito estadual seria possível um entendimento para, em suas palavras, “salvar o Ceará”. É uma tese interessante: diferenças profundas demais para conviver no país inteiro, mas perfeitamente administráveis dentro das fronteiras estaduais. Uma espécie de federalismo seletivo da conveniência política.

O problema é que a memória política costuma ser menos flexível que os discursos de campanha. Há pouco tempo, o próprio Ciro fazia questão de lembrar que a família de Jair Bolsonaro seria composta por “ladrões” e que representaria o que há de pior na política brasileira. Agora, curiosamente, o partido que abriga o bolsonarismo mais fiel se torna um parceiro potencial na missão de “salvar” o estado. Não é exatamente uma mudança ideológica sofisticada — parece mais um exercício de ginástica retórica, daqueles que exigem certa elasticidade moral.

Para completar o quadro, Ciro também trouxe à tona um episódio recente envolvendo Michelle Bolsonaro no Ceará. Segundo ele, durante uma visita ao estado, Michelle teria humilhado publicamente o deputado André Fernandes, um dos principais nomes do PL cearense. O detalhe curioso é que a própria Michelle seria contra qualquer tentativa de o partido apoiar Ciro. Ou seja: enquanto o pré-candidato tenta construir pontes, parte importante do campo bolsonarista parece ocupada em dinamitar a obra antes mesmo da fundação.

No fim das contas, a situação beira o surrealismo político. O mesmo Ciro que já chamou André Fernandes de “marginal” agora admite alinhar-se ao partido do deputado em nome de um bem maior. O mesmo grupo político que ele acusou de corrupção estrutural passa a ser tratado como aliado possível para resgatar o estado. Pode até ser estratégia eleitoral, cálculo pragmático ou simples desespero diante do tabuleiro político. Mas para quem acompanha o histórico recente das declarações, o nome mais direto para esse movimento talvez seja apenas um: cinismo.

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