Por |Moisés Cambuy
O afastamento de Eduardo Bolsonaro do cargo de escrivão da Polícia Federal, até a conclusão de um Processo Administrativo Disciplinar, é daqueles episódios que escancaram a distância entre o discurso inflamado e a rotina burocrática. Afinal, nada mais prosaico do que ser alvo de investigação interna por faltas não justificadas — algo que, para qualquer servidor comum, significaria constrangimento e possível punição. Mas quando o sobrenome pesa, a expectativa sempre parece ser a de imunidade automática.
Publicado no Diário Oficial da União, o afastamento tem a frieza típica dos atos administrativos: prazos, determinações, entrega de carteira funcional e arma institucional. A formalidade do texto contrasta com a retórica grandiosa que frequentemente cerca a família do ex-presidente Jair Bolsonaro. No papel timbrado da República, não há espaço para bravatas — apenas para procedimentos.
Lotado em uma delegacia da PF em Angra dos Reis, Eduardo agora experimenta algo raro no universo político brasileiro: consequências administrativas objetivas. A medida que o obriga a entregar distintivo e armamento em cinco dias úteis simboliza mais do que um rito funcional; é um lembrete de que cargos públicos não são extensões hereditárias de capital político, mas funções submetidas a regras.
Em um país acostumado a ver poder e responsabilidade caminharem em direções opostas, o caso provoca inevitável ironia. Tão vocais quando o assunto é “lei e ordem”, certos personagens parecem menos entusiasmados quando a ordem alcança o próprio quintal. Se o PAD confirmará irregularidades ou não, caberá ao processo dizer. Até lá, vale recordar: o serviço público não é palanque — e disciplina não deveria ser opcional.







