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O espetáculo político nas CPIs e a construção de narrativas de poder

Por | Moisés Cambuy

O episódio envolvendo o deputado Paulo Pimenta na CPI do INSS revela mais do que um simples momento de tensão: escancara a transformação de investigações parlamentares em arenas de disputa política. Durante a comissão, Pimenta apresentou acusações contundentes ligando figuras políticas a um suposto esquema envolvendo o Banco Master, apontando “digitais” e conexões que, segundo ele, evidenciariam um sistema organizado de corrupção . Esse tipo de abordagem, incisiva e direta, frequentemente coloca depoentes — inclusive banqueiros e empresários — em situações constrangedoras diante da exposição pública.

No entanto, é preciso questionar até que ponto esse constrangimento representa um avanço real na apuração dos fatos ou apenas um recurso retórico. O escândalo envolvendo o banco, considerado um dos maiores casos de fraude financeira do país, envolve acusações complexas como lavagem de dinheiro, corrupção institucional e manipulação do sistema financeiro . Diante de um cenário tão grave, espera-se das CPIs rigor técnico e objetividade — não apenas confrontos que rendem manchetes e viralizam nas redes.

Há também um componente estratégico nesse tipo de atuação. Ao adotar um tom acusatório forte, parlamentares como Pimenta conseguem pautar o debate público e direcionar a narrativa política. Isso pode pressionar investigados, inclusive banqueiros, mas também corre o risco de antecipar julgamentos e transformar a CPI em um palco de polarização. O constrangimento, nesse contexto, deixa de ser consequência da busca pela verdade e passa a ser ferramenta de disputa política.

Por fim, o caso levanta uma reflexão incômoda: a quem serve o espetáculo? Se por um lado a exposição pública pode acelerar investigações e dar transparência, por outro ela pode distorcer prioridades e enfraquecer a credibilidade institucional. O desafio está em equilibrar firmeza e responsabilidade — algo que, diante de episódios como esse, ainda parece distante da realidade das CPIs brasileiras.

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