Editorial | Moisés Cambuy | Entre narrativas e fatos:
Nos bastidores da política baiana, a disputa eleitoral de 2026 já começou — e com ela também a guerra de narrativas. Nos últimos meses, o ex-prefeito de Salvador, ACM Neto, tem alimentado especulações sobre a possibilidade de o MDB deixar a base governista e migrar para a oposição. A estratégia, contudo, parece esbarrar na realidade política e nas declarações públicas das principais lideranças envolvidas.
O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, tem reiterado que a base política segue coesa e que o MDB permanece integrado ao grupo que sustenta seu governo. Na prática, essa aliança não é apenas retórica: o partido ocupa espaços estratégicos na gestão e compõe a própria chapa eleita em 2022, que levou ao cargo de vice-governador o emedebista Geraldo Júnior.
Mais contundente ainda foi a resposta de uma das principais lideranças do MDB baiano. O presidente de honra da legenda, Lúcio Vieira Lima, tem ironizado as especulações de rompimento e reafirmado que o partido permanece alinhado ao governador. Em declarações públicas, chegou a afirmar que o MDB está “mais fechado com Jerônimo que o próprio PT”, descartando qualquer possibilidade de saída da base governista.
Em outra manifestação recente, Lúcio voltou a criticar ACM Neto e classificou o discurso da oposição como repetição de “falácias” e “ladainhas”, deixando claro que não há sinal concreto de mudança de posição do partido.
É evidente que, em períodos pré-eleitorais, especulações e movimentos de bastidores fazem parte do jogo político. Contudo, transformar hipóteses em fatos pode ser uma tentativa deliberada de produzir percepção pública favorável à oposição. Ao sugerir que o MDB estaria prestes a abandonar o governo, ACM Neto tenta sinalizar ampliação de sua base e enfraquecimento do grupo governista — mesmo quando as declarações oficiais apontam na direção oposta.
Na política, narrativas são instrumentos poderosos. Elas moldam expectativas, influenciam o debate público e podem criar a impressão de uma realidade que ainda não existe — ou que simplesmente não existe. No caso da relação entre o MDB e o governo estadual, porém, os fatos disponíveis até agora indicam exatamente o contrário da narrativa que vem sendo difundida: a aliança permanece ativa e, ao menos publicamente, sem sinais de ruptura.
Assim, o debate político na Bahia parece caminhar para uma disputa que não será apenas de projetos e propostas, mas também de versões sobre o tabuleiro eleitoral. E, como sempre, caberá à sociedade distinguir entre estratégia política e realidade.







