ACM Neto e o “paradoxo” seletivo: quando a memória política é conveniente
A fala de ACM Neto sobre um suposto “paradoxo econômico” na Bahia sob governos do PT não passa de um exercício clássico de oportunismo político. Ao apontar pobreza e desigualdade como marcas exclusivas das últimas décadas, o ex-prefeito ignora deliberadamente que esses problemas são históricos e estruturais no estado — muitos deles herdados justamente do ciclo político liderado por seu avô, Antônio Carlos Magalhães. Não se trata de defender governos, mas de expor a incoerência de quem tenta reescrever a história como se tivesse começado ontem.
Durante o domínio do chamado “carlismo”, que se estendeu por mais de 30 anos até 2006, a Bahia consolidou um modelo profundamente concentrador de renda e poder. Esse período foi marcado por forte centralização política, clientelismo e baixa inclusão social. Mesmo com incentivos industriais pontuais, o estado enfrentou crises severas, como o colapso da lavoura cacaueira nos anos 1990, que gerou desemprego em massa e agravou desigualdades regionais
. Ou seja, longe de ser um passado exemplar, foi um período que contribuiu diretamente para a estrutura desigual que persiste até hoje.
Além disso, ao criticar indicadores atuais, ACM Neto omite que muitos dos problemas sociais também são visíveis em territórios sob influência direta de seu grupo político. Dados recentes mostram que Salvador — governada por seu grupo por mais de uma década — apresenta altos níveis de desigualdade, desemprego e até desnutrição infantil, além de um dos menores PIBs per capita entre capitais brasileiras
. Isso desmonta a narrativa de superioridade administrativa e revela que o discurso é menos sobre solução e mais sobre conveniência eleitoral.
Por fim, a retórica de ACM Neto tenta simplificar uma realidade complexa para colher dividendos políticos. A Bahia, como qualquer estado brasileiro, carrega desafios históricos que atravessam diferentes governos e projetos. Reduzir isso a um ataque unilateral ao PT não apenas empobrece o debate público, como também expõe uma contradição central: quem hoje aponta o problema faz parte direta da sua origem. Ignorar isso não é crítica — é propaganda.







