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Quando o Helicóptero Pousa na Realidade

EDITORIAL

Opinião | Moisés Cambuy

Há cenas que parecem cuidadosamente produzidas para campanha eleitoral, e a mais recente protagonizada por ACM Neto se encaixa perfeitamente nessa categoria. Conhecido pela imagem de político associado ao conforto, ao luxo e aos ambientes mais exclusivos, o ex-prefeito, que frequentemente exibe uma rotina distante da realidade da maioria dos baianos, resolveu fazer uma incursão em uma comunidade que, segundo ele próprio, seria dominada pelo crime. A pergunta inevitável é: por que só agora? Afinal, a periferia não surgiu ontem, nem os seus problemas apareceram na véspera da disputa política.

O contraste chama atenção. De um lado, a imagem do político cercado por estruturas de poder, viagens em aeronaves milionárias e uma trajetória marcada por privilégios. Do outro, a tentativa de construir proximidade com moradores que convivem diariamente com dificuldades históricas. É quase uma cena de turismo político: visita rápida, discurso pronto, algumas fotos estratégicas e a promessa implícita de que, desta vez, ele finalmente descobriu uma realidade que existe há décadas.

O mais curioso é que comunidades costumam ser lembradas por certos setores da política apenas quando rendem manchetes, votos ou oportunidades para discursos dramáticos. Enquanto isso, milhares de famílias seguem trabalhando, estudando e lutando para construir uma vida digna, muito além da narrativa simplista que reduz territórios inteiros à criminalidade. Quando um político chega apresentando-se como desbravador de um lugar que sempre esteve ali, a impressão é menos de coragem e mais de conveniência.

No fim das contas, a cena deixa uma reflexão incômoda. Se o contato com as comunidades acontece apenas em períodos de maior interesse político, não estamos diante de um gesto de aproximação, mas de uma estratégia de marketing. E quando o helicóptero da narrativa pousa na realidade, fica difícil ignorar a distância entre quem vive os problemas todos os dias e quem os descobre apenas quando eles se tornam eleitoralmente úteis.

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