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Discurso popular, prática de luxo: o voo de ACM Neto e suas contradições

Opinião: Moisés Cambuy

ACM Neto decidiu fazer uma visita a Ilhéus, mas o que chamou atenção não foi exatamente a agenda política — e sim o meio de transporte escolhido. Ao embarcar em um jatinho avaliado em cerca de R$ 20 milhões, o ex-prefeito de Salvador parece ter deixado em solo qualquer tentativa de sustentar um discurso de proximidade com a população comum. Afinal, nada diz “pé no chão” como sobrevoar a realidade em grande estilo.

O contraste é inevitável. De um lado, a retórica tradicional de quem se apresenta como representante dos interesses populares; do outro, a prática que revela um distanciamento considerável da vida cotidiana da maioria dos brasileiros. Enquanto muitos enfrentam dificuldades com transporte básico, ACM Neto opta por um padrão de deslocamento que está longe de qualquer noção de simplicidade — ou coerência política.

Há também um elemento simbólico difícil de ignorar. Em tempos em que a classe política tenta, ao menos no discurso, demonstrar sensibilidade social, gestos como esse acabam reforçando a imagem de uma elite desconectada. O problema não é apenas o jatinho em si, mas o que ele representa: uma escolha que comunica prioridades e valores, ainda que de forma não intencional.

No fim das contas, o episódio expõe uma velha contradição da política brasileira: o abismo entre o que se diz e o que se faz. ACM Neto pode até tentar manter o discurso alinhado com o eleitor, mas atitudes como essa tornam a tarefa mais difícil — e oferecem combustível para críticas que, convenhamos, parecem vir em primeira classe.

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