Opinião | Moisés Cambuy
Na política, poucas coisas são tão reveladoras quanto uma mudança brusca de discurso. ACM Neto, que até pouco tempo se apresentava como um dos mais ruidosos críticos do presidente Lula, agora parece ter encontrado no silêncio uma nova estratégia. Depois de apostar no desgaste do governo federal e repetir que o petismo já não possuía a mesma força na Bahia, o ex-prefeito de Salvador praticamente retirou Lula de sua mira. Curiosamente, o adversário de ontem virou um tema a ser evitado, enquanto todas as energias passaram a ser direcionadas contra o governador Jerônimo Rodrigues.
A mudança não passa despercebida. Durante boa parte de 2024 e no início da pré-campanha de 2026, ACM Neto vinculava os problemas da Bahia diretamente ao governo federal e defendia, sem rodeios, o enfrentamento ao PT e ao próprio presidente. Agora, a retórica inflamada parece ter sido arquivada junto com antigas convicções. O que antes era tratado como uma ameaça nacional virou um assunto secundário, quase incômodo, para quem fazia questão de erguer a bandeira da oposição.
O episódio levanta uma pergunta inevitável: o que mudou, afinal? Lula deixou de representar tudo aquilo que Neto dizia combater ou a conveniência eleitoral falou mais alto? Quando os discursos mudam tão rapidamente, a impressão que fica é a de que princípios podem estar sendo substituídos por cálculos políticos. Afinal, quem se apresenta como líder precisa explicar por que abandona uma linha de ataque que, até ontem, considerava essencial para o futuro do estado e do país.
Em Porto Seguro, ACM Neto chegou a declarar de forma categórica: “Eu ficarei contra o PT e contra o Lula”. Hoje, o contraste entre aquela promessa e a postura atual é tão grande que beira a ironia. Na política, mudar de opinião é legítimo; o problema surge quando a mudança acontece sem explicações claras. Nesse caso, o silêncio parece falar mais alto do que qualquer discurso — e talvez seja justamente isso que mais incomoda quem acompanha a cena política baiana.







