Opinião | Moisés Cambuy
Em Jequié, a política parece ter encontrado um novo inimigo: a imprensa livre. O ex-prefeito Zé Cocá decidiu que, diante de denúncias envolvendo a compra milionária de ônibus seminovos para o transporte público, o melhor caminho não seria explicar os fatos à população, mas pressionar jornalistas a retirarem reportagens do ar. A estratégia é velha, mas continua reveladora: quando faltam argumentos convincentes, sobra intimidação. Segundo reportagens publicadas nesta semana, a defesa do ex-gestor enviou notificação extrajudicial exigindo a remoção de matérias que tratavam de suspeitas de superfaturamento e inconsistências no processo de aquisição dos veículos.
O mais curioso é que ninguém denunciou Zé Cocá por comprar pão na padaria ou trocar lâmpadas da prefeitura. As denúncias envolvem um contrato milionário, abastecido com dinheiro público, questionado por vereadores e encaminhado a órgãos como Ministério Público, Polícia Federal e Tribunal de Contas. Em qualquer democracia minimamente séria, isso seria tratado com transparência absoluta. Mas em Jequié, aparentemente, denunciar possíveis irregularidades virou “sensacionalismo”, enquanto tentar calar jornalistas passou a ser tratado como defesa da honra. É a inversão moral perfeita: o problema deixa de ser o escândalo e passa a ser quem teve coragem de noticiá-lo.
A tentativa de silenciamento revela algo ainda mais preocupante: a velha cultura coronelista que acredita que político deve ser protegido da crítica pública. Não basta controlar contratos, discursos e aliados; agora querem controlar também o que o povo pode ler. O jornalista é pressionado, a reportagem é atacada e a sociedade recebe o recado implícito: “não mexam nisso”. Só esqueceram de avisar que imprensa não existe para agradar poderosos. Existe justamente para investigar, questionar e incomodar quando o dinheiro do cidadão parece entrar em rotas nebulosas.
No fim, Zé Cocá talvez esteja produzindo o efeito contrário do que desejava. Ao tentar retirar matérias do ar, acabou ampliando o debate e levantando ainda mais dúvidas sobre a compra dos ônibus. Porque quem está realmente tranquilo não costuma correr desesperadamente atrás de notificações para apagar reportagens. A democracia não se sustenta no silêncio imposto, mas na liberdade de denunciar, investigar e cobrar explicações. E se há algo que assusta certos políticos, não é a mentira — é a verdade circulando livremente.







